O mal essencial e a fuga da dor como elementos não evolutivos humanos

Por: Alan Diniz Souza
Em: 13 de março de 2026

A resposta atribuída a Paulo de Tarso na questão 1008 de O Livro dos Espíritos, organizado por Allan Kardec, afirma que o mal e o crime persistirão enquanto os seres humanos permanecerem moralmente imperfeitos, tendendo a desaparecer à medida que a humanidade evoluir moralmente. O mal, nesse horizonte, não constitui uma essência definitiva, mas uma etapa do desenvolvimento espiritual. A dor e o sofrimento, portanto, não aparecem apenas como algo a ser eliminado, mas como experiências que revelam a imperfeição humana e impulsionam o progresso moral. A negatividade da existência adquire, assim, uma função pedagógica, na medida em que confronta o sujeito com seus limites e convoca à transformação.

A sociedade busca anestesiar o sofrimento com consumo, medicalização e positividade forçada, tratando a dor como algo a ser eliminado, perdendo a capacidade de enfrentá-la e elaborá-la.

Essa concepção pode ser colocada em diálogo com a crítica desenvolvida por Byung-Chul Han em A Sociedade Paliativa: A Dor Hoje. Segundo Han, a contemporaneidade construiu uma cultura orientada pela eliminação da dor, da negatividade e do conflito. A sociedade torna-se paliativa porque procura anestesiar o sofrimento por meio da medicalização, do consumo e da positividade compulsória. A dor deixa de ser compreendida como experiência com sentido e passa a ser tratada apenas como disfunção a ser rapidamente suprimida. O resultado é uma subjetividade que evita o confronto com o limite e perde a capacidade de elaborar o sofrimento.

Essa leitura encontra um importante ponto de articulação com as formulações de Sigmund Freud em O Mal-Estar na Civilização. Nesse texto, Freud afirma que o sofrimento é estrutural à condição humana e decorre de três fontes principais: o corpo, o mundo externo e, sobretudo, as relações com os outros. A cultura surge como tentativa de regular a agressividade e tornar possível a vida coletiva, mas essa mesma cultura exige renúncias pulsionais que produzem inevitavelmente mal-estar. Em outras palavras, não há civilização sem repressão das pulsões, e essa repressão gera sofrimento psíquico. O mal-estar não é um acidente, mas efeito necessário da vida em sociedade.

Nesse ponto, Freud aproxima-se da ideia espírita de que o mal e o sofrimento não desaparecem imediatamente, pois estão ligados ao estado imperfeito do ser humano. Contudo, enquanto a resposta atribuída a Paulo aponta para uma superação progressiva do mal por meio da evolução moral, Freud mantém uma posição mais trágica: a agressividade e o conflito pulsional pertencem à própria estrutura do sujeito. A civilização reduz a violência, mas ao preço de intensificar o sentimento de culpa e a tensão interna. O sofrimento, portanto, não é apenas pedagógico, mas estrutural.

A sociedade paliativa tenta eliminar o sofrimento, mas, ao evitar o conflito e a frustração, não o supera; apenas o nega ou o anestesia, substituindo a elaboração por uma gestão técnica da dor.

Ao mesmo tempo, a análise de Freud ilumina a crítica de Han. Se o mal-estar é inerente à cultura, então a tentativa contemporânea de eliminá-lo completamente constitui uma ilusão. A sociedade paliativa descrita por Han busca suprimir o sofrimento, mas ignora que ele é constitutivo da vida psíquica e social. Ao evitar o conflito, a negatividade e a frustração, essa cultura não supera o mal-estar, apenas o desloca ou o anestesia. Em vez de elaboração, produz-se negação; em vez de transformação, gestão técnica da dor.

Assim, as três perspectivas convergem em um ponto decisivo: a dor e o mal não podem ser simplesmente eliminados. Na leitura espírita, eles fazem parte do processo evolutivo do espírito; em Freud, constituem efeito inevitável da civilização e da renúncia pulsional; em Han, sua negação caracteriza uma sociedade que empobrece a experiência humana. A tentativa contemporânea de abolir o sofrimento impede tanto a elaboração psíquica quanto o desenvolvimento moral. A dor, quando reconhecida e simbolizada, pode transformar o sujeito; quando negada, retorna sob formas difusas de vazio, ansiedade e violência silenciosa.

Uma sociedade que tenta apenas anestesiar o sofrimento impede o movimento que transforma a dor em aprendizado e o mal em experiência de crescimento humano.

Dessa forma, a resposta atribuída a Paulo pode ser relida à luz de Freud e Han: o mal diminui não quando a dor é suprimida, mas quando ela é elaborada. A evolução moral, o trabalho civilizatório e a maturação subjetiva exigem a travessia da negatividade. Uma sociedade que busca apenas anestesiar o sofrimento corre o risco de impedir justamente o movimento que permitiria transformar o mal em aprendizado e a dor em experiência de crescimento humano.

Reelaborar a dor, sem querer eliminá-la, implica mudar nossa relação com ela. O texto anterior, ao articular Paulo de Tarso na questão 1008 de O Livro dos Espíritos, a crítica de Byung-Chul Han em A Sociedade Paliativa: A Dor Hoje e a análise de Sigmund Freud em O Mal-Estar na Civilização, sugere que a dor não deve ser suprimida, mas transformada em experiência de elaboração. Isso significa, primeiro, reconhecer que o sofrimento não é um erro da existência. Para Freud, ele é estrutural à vida civilizada; para Han, sua negação empobrece a experiência humana; e, na perspectiva espírita, ele participa do processo de aperfeiçoamento moral. Reelaborar a dor começa, portanto, por aceitá-la como parte constitutiva da condição humana, e não como algo que precisa ser imediatamente anestesiado.

Um segundo movimento consiste em simbolizar a dor. Em termos psicanalíticos, isso significa colocar o sofrimento em palavras, dar-lhe forma narrativa, permitir que ele se inscreva na história do sujeito. Quando a dor é apenas sentida, ela tende a se repetir como afeto bruto; quando é simbolizada, torna-se experiência. Esse processo transforma a dor de algo puramente passivo em algo que pode ser pensado, compreendido e integrado. A fala, nesse sentido, não elimina o sofrimento, mas modifica sua função psíquica.

Um terceiro aspecto é a possibilidade de extrair da dor um trabalho de transformação. Na resposta atribuída a Paulo, o mal e o sofrimento estão ligados à imperfeição humana, e sua superação ocorre pela evolução moral. Isso sugere que a dor pode revelar limites, egoísmos, dependências ou ilusões. Reelaborar o sofrimento implica interrogar o que ele mostra sobre nossa posição no mundo, nossas expectativas e nossos modos de relação. A dor deixa então de ser apenas algo que nos acontece e passa a ser algo que nos ensina.

A crítica de Han acrescenta ainda outro elemento: resistir à cultura da anestesia. A sociedade contemporânea oferece múltiplas formas de neutralizar rapidamente o sofrimento — distrações, consumo, positividade forçada, medicalização indiscriminada. Reelaborar a dor exige, ao contrário, suportar o tempo da elaboração, não fugir imediatamente do desconforto. Trata-se de uma atitude que recoloca a negatividade como parte necessária do amadurecimento subjetivo.

Por fim, reelaborar a dor também significa transformá-la em experiência ética. Em Freud, o mal-estar civilizatório nasce do conflito entre pulsões e convivência social; na perspectiva espírita, a dor contribui para o progresso moral; e, em Han, sua negação produz sujeitos isolados e frágeis. Quando a dor é elaborada, ela pode ampliar a sensibilidade ao sofrimento do outro, favorecendo a empatia e a solidariedade. O sofrimento deixa de ser apenas individual e passa a ter um efeito humanizador.

Assim, reelaborar a dor não é suprimi-la, mas reconhecê-la, simbolizá-la, interrogá-la e transformá-la. Em vez de anestesia, elaboração; em vez de negação, travessia; em vez de eliminação, transformação. A dor permanece, mas muda de estatuto: deixa de ser apenas peso e torna-se também experiência que pode produzir compreensão, maturidade e abertura ao outro.

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