Todo medo é medo da morte?
A afirmação é forte: todo medo seria, no fundo, medo da morte.…
Vivemos um tempo em que a experiência do mundo deixou de ser mediada pela proximidade e passou a ser atravessada por fluxos contínuos de imagens, narrativas e comparações. A internet não apenas ampliou o horizonte do visível; ela alterou profundamente o modo como percebemos a nós mesmos. A consequência mais sutil — e talvez mais inquietante — é a transformação daquilo que chamamos de “necessidades”.
Não se trata simplesmente de dizer que hoje queremos mais coisas. O ponto é outro: passamos a viver sob uma pressão constante de desejar, como se o próprio desejo tivesse se tornado uma exigência social. Nesse cenário, aquilo que antes era uma falta concreta — a ausência de um objeto específico — converte-se em uma falta difusa, permanente, alimentada por uma exposição incessante ao que o outro possui, vive ou aparenta viver.
Aqui, a leitura de Sigmund Freud oferece um primeiro eixo de compreensão. O desejo humano, para ele, não nasce da necessidade biológica, mas de uma falta estrutural. O sujeito não deseja apenas o que lhe falta; ele deseja a partir de uma constituição marcada pela incompletude. Ora, o que ocorre quando essa estrutura é continuamente excitada por imagens de completude alheia? A falta deixa de ser constitutiva e torna-se hiperestimulada, quase inflacionada. O resultado não é satisfação, mas intensificação do próprio desejo — uma engrenagem que se alimenta de si mesma.
Mas há um segundo movimento, mais profundo, que ultrapassa a dimensão psíquica individual e toca a própria estrutura do mundo contemporâneo. Martin Heidegger já advertia que a técnica não é neutra: ela não apenas serve ao homem, mas determina a forma como o mundo se revela. Na era digital, essa revelação assume um caráter performativo. Tudo se apresenta como disponível, mensurável, exibível. O ser humano, por sua vez, passa a existir também sob essa lógica — não apenas como sujeito que vê, mas como objeto que deve ser visto.
Nesse contexto, a necessidade deixa de ser um dado interno para tornar-se uma construção externa. Não desejamos simplesmente; aprendemos o que devemos desejar. E aprendemos rapidamente, por meio de algoritmos que antecipam preferências, reforçam padrões e transformam a experiência em repetição orientada. O sujeito já não se confronta com sua falta; ele a terceiriza, deixando que o mundo lhe diga o que lhe falta.
O circuito se fecha — ou melhor, se intensifica:
Não há resolução nesse processo, apenas continuidade. A satisfação plena torna-se estruturalmente impossível, pois o desejo é constantemente reconfigurado por novos estímulos.
Do ponto de vista espiritual, essa dinâmica pode ser pensada à luz de Allan Kardec, que distingue entre as necessidades do corpo e as do espírito. O problema contemporâneo parece residir justamente na confusão entre essas duas ordens. O que se apresenta como “necessário” muitas vezes não passa de um acúmulo de experiências superficiais, incapazes de promover qualquer transformação real do ser.
Há, portanto, uma inversão silenciosa: quanto mais possibilidades se abrem, menos clareza temos sobre o que, de fato, nos é essencial. A abundância de estímulos não produz discernimento; ao contrário, pode obscurecê-lo. A multiplicidade de escolhas não conduz necessariamente à liberdade; pode conduzir à dispersão.
“Quando tudo é possível, o essencial se perde — e a liberdade cede lugar à dispersão.”
Talvez seja preciso recolocar a questão em termos mais rigorosos. Não se trata de rejeitar a internet ou demonizar a técnica — isso seria ingênuo e improdutivo. A questão é outra: como recuperar a capacidade de discernir nossas próprias necessidades em meio a um mundo que constantemente tenta defini-las por nós?
Essa pergunta não é apenas psicológica ou sociológica; ela é, no limite, ontológica. Diz respeito ao modo como nos relacionamos com o nosso próprio ser. Se aquilo que chamamos de “necessidade” é determinado externamente, então corremos o risco de viver uma existência heterônoma, orientada por forças que não reconhecemos plenamente.
A expansão da nossa janela para o mundo é um fato irreversível. Mas ela traz consigo uma exigência igualmente radical: a de desenvolver uma interioridade capaz de sustentar o confronto com esse excesso de mundo. Sem isso, a abertura se transforma em dispersão, e o acesso em alienação.
Em última instância, a questão permanece em aberto — e talvez deva permanecer assim: em um mundo onde tudo se apresenta como necessário, ainda sabemos reconhecer aquilo que realmente nos falta?
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