Onde a mãe permanece: entre o visível e o invisível da existência

Por: Alan Diniz Souza
Em: 6 de maio de 2026

Falar sobre as mães, sendo homem, é reconhecer um limite. Há algo na maternidade que não se deixa capturar completamente pela linguagem, pela teoria ou pela experiência indireta. Por isso, qualquer tentativa de definição corre o risco de reduzir aquilo que, em essência, é mistério.

Talvez o único lugar legítimo de fala seja este: o de filho.

Porque a maternidade não é, antes de tudo, um conceito. É uma marca constitutiva. É aquilo que nos atravessa antes mesmo de sabermos quem somos. Antes de qualquer elaboração filosófica, antes de qualquer construção simbólica, houve um gesto de cuidado que nos sustentou.

Como afirmou Chico Xavier, “a maternidade é um segredo entre a mulher e Deus”. E talvez essa afirmação aponte justamente para o que escapa: há, na maternidade, um tipo de entrega que não se esgota na compreensão humana. Trata-se de uma experiência que toca o sagrado — não no sentido dogmático, mas naquilo que funda, sustenta e possibilita a vida.

Nesse sentido, a maternidade pode ser pensada, sob uma perspectiva espiritualista, como um ponto de encontro entre planos. Não apenas a geração de um corpo, mas o acolhimento de um espírito em sua trajetória. Não nascemos por acaso. Há vínculos que atravessam o tempo, relações que se reencontram, histórias que pedem continuidade ou elaboração.

A mãe, então, não é apenas origem biológica — é também mediação existencial.

Contudo, é preciso romper com uma idealização frequentemente presente nesse tema. A maternidade não é feita apenas de luz. Ela é atravessada por cansaço, limite, falha, ambivalência. Reconhecer isso não diminui a figura materna; ao contrário, a restitui à sua condição humana.

Não precisamos de mães perfeitas. Precisamos de mães reais.

Essa distinção é fundamental, pois desloca o amor de um ideal inalcançável para uma experiência concreta. Amar, nesse contexto, não é corresponder a um modelo, mas permanecer — apesar das imperfeições, das dificuldades e das insuficiências inevitáveis.

Foi, aliás, a própria vida que me permitiu compreender isso de forma mais direta. Ao observar minha esposa, mãe da nossa filha Júlia, tive acesso a uma dimensão da maternidade que não se aprende teoricamente. Nos gestos cotidianos, muitas vezes invisíveis — no cansaço silencioso, nas noites interrompidas, na atenção constante — revela-se um modo de amar que não se anuncia, mas se exerce.

E, nesse processo, algo se inverte: aquele que supostamente ocuparia o lugar de referência descobre-se aprendiz. Foi através dela que aprendi, efetivamente, a ser pai. Não por instrução formal, mas por testemunho vivo.

Isso conduz a uma compreensão mais profunda: o amor não nasce pronto no sujeito. Ele é despertado, ensinado, transmitido na relação.

Ao mesmo tempo, ao olhar para minha filha, surge uma outra dimensão da experiência. Há um deslocamento sutil, mas decisivo: a percepção de que aquilo que foi recebido e aquilo que está sendo vivido não se esgota no presente. Há uma continuidade em curso.

Imaginar que, um dia, ela também poderá ocupar o lugar de mãe não é apenas projetar um futuro possível. É reconhecer que a maternidade não pertence a um indivíduo, mas a uma cadeia de existência. Trata-se de uma experiência que atravessa gerações, transformando-se sem desaparecer.

Essa compreensão ganha ainda mais profundidade quando confrontada com a fragilidade da condição humana. Atualmente, minha mãe encontra-se internada, vivendo o processo do Alzheimer. Diante disso, impõe-se uma questão decisiva: o que permanece quando a memória falha?

A experiência oferece uma resposta que nenhuma teoria seria capaz de antecipar plenamente: o amor não depende da memória.

Mesmo quando as lembranças se desfazem, algo insiste em permanecer. Um vínculo que não se reduz ao reconhecimento consciente, uma presença que não se mede pela lucidez. Há, nesse contexto, uma dimensão do amor que escapa à lógica da identidade e da recordação.

O amor verdadeiro não se rompe com o tempo, nem com a doença, nem com a morte. Ele se transforma, mas não se extingue.

O mesmo pode ser dito das mães que já partiram. Sua ausência não equivale a um desaparecimento absoluto. Elas continuam presentes nos gestos que repetimos, nos valores que sustentamos, nas escolhas que realizamos — muitas vezes sem perceber que ali se atualiza uma herança afetiva.

Sob uma perspectiva espiritual, essa permanência não é apenas simbólica. O amor verdadeiro não se rompe com o tempo, nem com a doença, nem com a morte. Ele se transforma, mas não se extingue.

Diante disso, talvez seja necessário deslocar a pergunta inicial. Em vez de indagar o que é uma mãe, seria mais fecundo perguntar: onde ela permanece?

Se o amor fosse apenas presença física, ele terminaria.
Se fosse apenas memória, ele se perderia.

Mas não é o caso.

O amor resiste. Resiste ao tempo, ao esquecimento, à finitude.

E isso nos conduz a uma conclusão que é, ao mesmo tempo, filosófica e existencial: a maternidade não é apenas um acontecimento localizado na vida de um indivíduo, mas uma força que atravessa a própria existência.

Nenhum de nós começa em si mesmo.

Todos nós temos origem em um gesto de entrega que não nos pertenceu, mas que nos constituiu. E talvez a forma mais autêntica de reconhecimento não seja apenas a lembrança, mas a continuidade.

Continuar o cuidado.
Continuar o amor.
Continuar aquilo que um dia começou em outro — e que agora encontra, em nós, a possibilidade de seguir existindo.

Porque, ao final, uma mãe não é apenas alguém que esteve.

É alguém que, de forma profunda e silenciosa, nunca deixa de estar.

Leia também