Puxar os fios na Psicanálise
Pensar o atendimento psicanalítico como um “puxar de fios” que visa à…
Há perdas que terminam num instante. Outras continuam acontecendo lentamente diante dos nossos olhos. A experiência humana do sofrimento nem sempre se organiza de forma linear, e talvez uma das situações mais devastadoras seja justamente aquela em que o sujeito precisa sustentar simultaneamente duas modalidades distintas de perda: a morte concreta e a permanência esvaziada.
Ao ler Sigmund Freud em Luto e Melancolia (1917), torna-se possível pensar clinicamente uma experiência cada vez mais presente na contemporaneidade: o encontro entre o luto provocado pela morte efetiva de alguém amado e a melancolia produzida pela perda progressiva de uma presença psíquica, como ocorre nos processos demenciais ligados ao Alzheimer.
Quando alguém morre, a realidade impõe ao sujeito uma tarefa dolorosa: reconhecer que o objeto amado não está mais no mundo. Freud compreende o luto como esse lento trabalho psíquico em que a libido, antes investida no objeto perdido, precisa gradualmente se desligar dele. Trata-se de um processo profundamente doloroso, mas ainda sustentado por certa possibilidade simbólica de elaboração. O sujeito sofre porque sabe o que perdeu.
Na melancolia, entretanto, algo se torna mais obscuro. O sujeito sofre sem conseguir delimitar completamente a natureza da perda. O objeto permanece parcialmente presente, mas profundamente alterado. Não há desaparecimento absoluto, tampouco continuidade plena. Há um esvaziamento.
É justamente nesse ponto que a experiência do Alzheimer adquire uma densidade clínica singular.
A mãe continua viva. O corpo permanece. O rosto ainda pode ser reconhecido. Pequenos traços afetivos surgem em fragmentos. Porém, aquilo que sustentava simbolicamente a função materna — memória compartilhada, reconhecimento, continuidade narrativa, reciprocidade afetiva — começa lentamente a desaparecer. O sujeito passa então a viver uma experiência paradoxal: precisa lidar com alguém que ainda existe fisicamente, mas cuja presença psíquica já não ocupa o mesmo lugar.
Não se trata apenas da perda da mãe real, mas da perda progressiva do ideal da mãe presente na vida.
E talvez seja precisamente aí que a contribuição de Ferenczi se torna fundamental.
Enquanto Freud enfatiza a dinâmica econômica do investimento libidinal e da perda do objeto, Ferenczi desloca o olhar para a dimensão traumática do abandono afetivo e para a sensibilidade do vínculo. Em sua clínica, o trauma não é somente aquilo que acontece violentamente, mas também aquilo que desorganiza silenciosamente a confiança afetiva fundamental do sujeito.
O Alzheimer produz exatamente esse tipo de ruptura.
O filho ou filha que acompanha o apagamento progressivo da mãe experiencia uma forma peculiar de desmentido existencial. A pessoa que antes sustentava a memória familiar deixa gradualmente de reconhecer histórias, nomes, datas e, em muitos casos, o próprio filho. Há algo profundamente traumático em deixar de ser reconhecido por aquele olhar que ajudou a constituir nossa identidade.
Ferenczi compreendia que determinadas dores psíquicas produzem uma espécie de fragmentação interna. O sujeito não sofre apenas pela ausência do outro, mas pela ruptura do campo afetivo que organizava sua própria continuidade emocional. Em muitos casos, o cuidador ou familiar entra num estado de exaustão psíquica silenciosa, sustentando simultaneamente amor, culpa, impotência, irritação e tristeza.
A internação de um familiar com Alzheimer frequentemente intensifica esse conflito. Surge a sensação de falha moral: “abandonei quem cuidou de mim”. Contudo, clinicamente, é necessário reconhecer que cuidar não significa necessariamente suportar sozinho o impossível.
Ferenczi talvez ajudasse a compreender que o sofrimento mais devastador não nasce apenas da perda, mas da solidão diante dela.
Existe algo particularmente cruel na experiência do Alzheimer: o luto não possui encerramento claro. Diferente da morte, que impõe um corte definitivo, a demência cria uma temporalidade suspensa. O familiar vive sucessivas pequenas perdas: a perda da memória, da linguagem, do reconhecimento, da autonomia, dos gestos cotidianos e, por fim, da própria reciprocidade afetiva tal como era conhecida anteriormente.
Cada estágio exige um novo trabalho psíquico.
Nesse sentido, o Alzheimer produz uma espécie de “luto continuado”. O objeto não desaparece completamente, mas vai se tornando progressivamente inacessível. Isso pode gerar estados melancólicos porque parte do investimento afetivo permanece preso a uma imagem anterior do objeto — a mãe que existia antes do adoecimento.
Freud escreve que, na melancolia, “a sombra do objeto caiu sobre o eu”. Talvez possamos ampliar essa formulação para pensar que, no Alzheimer, não apenas a sombra do objeto recai sobre o sujeito, mas também a sombra de uma memória que lentamente se desfaz.
E quando a memória do outro desaparece, algo da nossa própria história parece vacilar.
A mãe é frequentemente aquela que testemunha nossa origem simbólica. Ela lembra quem fomos antes de nós mesmos conseguirmos lembrar. Quando esse olhar se perde, o sujeito pode experimentar um sentimento profundo de desenraizamento identitário.
Por isso, o sofrimento diante do Alzheimer não se reduz ao medo da morte. Trata-se também do sofrimento provocado pelo desaparecimento progressivo do espelho afetivo que sustentava nossa continuidade subjetiva.
Ferenczi talvez nomeasse isso como uma ferida do vínculo.
Ainda assim, há algo importante clinicamente: reconhecer que o amor não desaparece junto com a deterioração psíquica. Muitas vezes, ele muda de forma. O vínculo deixa de se sustentar na troca simbólica plena e passa a existir em pequenos restos de presença: um gesto, um toque, um olhar momentâneo, uma respiração tranquila durante uma visita.
O amor deixa então de depender exclusivamente do reconhecimento consciente.
Talvez uma das tarefas mais difíceis do sujeito seja justamente aprender a amar sem a garantia de retorno simbólico pleno.
Entre o luto pela morte do pai e a melancolia produzida pela perda progressiva da mãe, o sujeito contemporâneo é confrontado com algo radicalmente humano: nem toda perda acontece de uma só vez. Algumas permanecem acontecendo dentro de nós durante anos.
E talvez elaborar essas dores não signifique esquecer, mas construir novas formas de presença diante daquilo que nunca poderá ser completamente recuperado.
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